Você está com medo. Preso em um quarto escuro, ouvindo as vozes sussurrando que é melhor ficar aí. Passou algum tempo tentando entender o que havia de errado em você e quando descobriu, ficou se perguntando por que você tinha que ser defeituoso, errado, diferente.

Tem medo que seus pais te expulsem de casa, que seus amigos lhe virem as costas. Tem medo de ser atacado na rua, de ser julgado, pisado. Você fica triste por ver as notícias, por ouvir o que dizem sobre pessoas como você. Você não queria ser assim e agora está preso em uma luta em que nunca quis estar.

Sabe, eu já estive aí antes. É assustador, é uma dor profunda todos os dias. As primeiras experiências sexuais aparecem e o mundo parece desmoronar ao seu redor – de repente, você já não se encaixa mais no mundo.

Escuta só: Você é nada além do que nasceu pra ser e não é inferior a ninguém por isso (nem superior). Você é você, simples assim.

A jornada da vida é difícil pra todos nós – e não existe mais difícil ou menos difícil nela. Talvez você se sinta sozinho e eu te digo que somos muitos os que não se encaixam na caixinha pequena dos padrões considerados normais.

Ótimo!

Diferenças não são problemas, são naturais e uma ótima coisa, mas não espero que você me dê ouvidos. Vou te contar minhas próprias experiências porque a partir de agora somos amigos e é isso que amigos fazem.

Eu não sei exatamente quando foi que descobri que era gay, mas tenho lembranças de minha infância cravadas na mente. Toda a confusão que eu sentia, o medo. Eu me sentia errado, me sentia pecador, sentia que estava cometendo um crime.

Quando eu me masturbava, sentia vergonha de mim mesmo e, depois, vinha a tristeza profunda. Eu esperava poder mudar isso um dia, esperava que fosse uma fase, um momento, mas cá estou eu, anos depois, no mesmo barco.

O que eu mais sentia era solidão. Não conhecia mais ninguém como eu até que fiz minha primeira amiga lésbica, na oitava série. Trocávamos confidências, um apoiando o outro no descobrimento da própria sexualidade e dando forças para a luta diária, para as saídas do armário… Foi quando eu comecei a me aceitar, que foi a parte mais difícil e dolorosa. Tudo se tornou mais fácil, então, mas ainda assim difícil.

A realidade bate na nossa cara quase sempre e isso se refere a qualquer pessoa independente da orientação sexual. Apesar disso, eu aprendi no percurso que a felicidade é algo que todos merecemos e eu não podia simplesmente deixar a minha ser levada pelo preconceito, pela intolerância, pelo medo. Eu não podia sacrificar minha felicidade por causa das expectativas dos outros, por causa de um padrão de normalidade construído pela sociedade.

Eu merecia a felicidade e só conseguiria isso sendo quem nasci pra ser: eu mesmo.

Não posso dizer, de modo algum, que você deve fazer isso ou aquilo, que é tudo um mar de rosas ou que vai dar tudo certo. Não posso te dar uma receita de como sair do armário ou encontrar namorade. Mas eu posso te dizer “aqui estou” e mostrar que, como nós, existem muitos e muitos outros pelo mundo. Eu posso te mostrar que você não está sozinho.

Nessa nova jornada, que é um mistério para mim, eu pretendo ajudar a você e a mim mesmo nesse mundo de incertezas. Vamos nos permitir, como diria Lulu. Seja bem vinde e que seja proveitoso!